Imersão em Contos [3]

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Leia a série do início: Prolegômeno 

Capítulo anterior: O Despertar

O Início

                      Naquela tarde, as frases mostradas no noticiário não saíram da cabeça de David, porém o trabalho não colaborou tanto, fazendo com que ele tivesse que ficar além do horário em um de seus clientes.

         Chegou em casa correndo, porém soube que estava atrasado para o programa quando ligou sua tv e a explicação já estava na metade. Por sorte ainda conseguiu chegar no primeiro bloco da programação. Serviu um copo de refrigerante, acomodou-se na poltrona, relaxou um pouco, e então toda sua atenção se voltou ao que a apresentadora falava:

 

...durante as investigações que se sucederam na cena, notou-se que Maurício tentou de várias formas se comunicar com o exterior da casa. Talvez por acreditar que alguém pudesse lhe ouvir, ou quem sabe ele realmente tenha percebido que alguém estava por perto. Essas tentativas foram registradas das mais diversas formas, e após vários meses de investigações acerca do caso, esses indícios foram arquivados e nunca vieram à publico. Porém, devido a revolta popular com a suspensão das buscas, a polícia retornou ao local. Não obtendo um sucesso maior, e preocupados com a represália da população, decidiram aceitar tornar público o material que fora colhido dentro da casa. Para um melhor entendimento, esse material foi organizado para exibição por sua ordem cronológica de fatos, e não exatamente pela ordem que os indícios foram feitos. Confiram agora com exclusividade, todas as peças desse complicado quebra-cabeça, e tirem suas próprias conclusões.

 

         Uma música de suspense começa a tocar. A tela fica toda preta, e alguns instantes depois uma imagem turva aparece. Aparecem efeitos de olhos piscando, e então uma voz retumbante começa a ler o que seriam os primeiros acontecimentos, enquanto a animação na tela refaz cada palavra dita pelo narrador:

 

         “Tudo começou no primeiro dia. Eu estava muito apreensivo pensando no que poderia ter dado errado para que Luna me ligasse no meio da noite, após tanto tempo. Acredito que minha preocupação afetou algo em meu sistema nervoso e eu mal conseguia pensar no que estava acontecendo, apenas sentia que precisava ajudá-la. Esse foi meu primeiro grande erro, pois graças à isso consegui fazer o mais difícil, que foi arrombar uma porta que nem trancada estava. Acredito ter visto Luna antes de tropeçar e bater a cabeça com toda a força numa mesinha qualquer no meio da sala.

         Quando acordei, minha cabeça doeu tanto, mas tanto, que parecia que eu tinha sido atropelado por um caminhão carregado. Meus olhos dificilmente se acostumariam com aquela luminosidade, pois apesar de ser dia, a sala estava muito escura, pois lembro-me de ter visto tábuas de madeiras pregadas nos umbrais, pelo lado de fora da casa, cortando completamente qualquer feixe de luz que tentasse entrar pelas janelas. Abri meu celular para tentar ver que horas eram, mas esqueci que a bateria tinha acabado ainda em casa. Por sorte ela ainda teria o carregador que lhe dei de presente, afinal até o gosto para celulares temos em comum. Levantei ainda um pouco tonto, pus minhas mãos na nuca, em busca de algum sinal de sangue. Por sorte apenas tive a reação de dar um grito quando toquei no galo que tinha se formado quando caí. Vou tentar descrever como estava essa sala quando aqui acordei: O chão é todo forrado de parquet, com uma mesinha onde fica o telefone logo à frente da porta. Na parede à direita encontra-se uma janela, e ao lado, um sofá verde fora colocado ali para poder assistir à tv que, sem antena alguma, ficava encima de um rack com quatro gavetas. Logo que me levantei, tentei acender as luzes, porém nada ocorreu. Então fui até a tv e a liguei, ao menos para clarear um pouco e não ter perigo de me machucar novamente com qualquer coisa no caminho. Olhei para cima e percebi que as lâmpadas haviam sido retiradas, o que explica o motivo pelo qual nao conseguir acender. Como era de se esperar, apenas chuviscos na tela, mas o suficiente para iluminar um pouco a sala e me permitir procurar o carregador que, por sorte, estaria em algum lugar dali.

         Abri as gavetas e comecei a vasculhar, ainda com uma forte dor na cabeça, em busca do carregador do celular. Na primeira gaveta haviam apenas velhas contas de luz que já tinham sido pagas, inclusive com seus recibos. Tirei rapidamente as contas para me certificar de que não estaria ali embaixo, e logo recoloquei. Abri a segunda gaveta e lá não havia absolutamente nada. Soltando uma breve exclamação de alegria  puxo um cabo que logo reconheci como sendo o que eu estava procurando. Tirei a tv da tomada e logo inseri o carregador, colocando na outra ponta meu celular completamente descarregado.

         Fiquei imóvel em torno de uns 5 minutos aguardando o mínimo de carga, quando abro meu celular e aperto o botão que o liga. Satisfeito por ter dado certo, logo reparo no horário. Já era dia, porém a penumbra dentro da casa não dava a menor impressão do sol já ter se erguido no horizonte. Pelo visto passei algumas horas desmaiado, o que me assustou, pois poderia ter acontecido o que eu temia. Minha primeira reação foi gritar pelo nome dela. Não obtendo resposta, o sangue começou a correr mais violentamente nas minhas veias. Não poderia.... não aceitaria que algo tivesse acontecido com ela por meu descuido. Peguei meu celular e comecei a ligar para o número dela, porém, após três tentativas frustradas desisti dessa idéia.

         Quem sabe ela tivesse saído. Isso, ela teria me visto cair e saiu buscar ajuda, ou fugiu amedrontada. Ninguém sabe muito bem o que esperar da mente de Luna. Fui em direção à porta atrás de mim, e dessa vez tentei abri-la primeiro, porém nada aconteceu. A porta permaneceu intacta e imóvel. Segurei o trinco com as duas mãos e fiz uma grande força para tentar girar a maçaneta e puxar a porta, porém não adiantou. - Isso não faz sentido, pensei, - eu sei que foi por ali que eu entrei, é impossível que agora eu não consiga abrir -. Tentei bater com o ombro na porta, porém arrombar para o lado de fora é uma tarefa um pouco mais complicada.

Só me restou procurar uma chave, ou quem sabe até Luna tivesse em algum cômodo da casa, talvez ferida, talvez dormindo, ou até rindo de tudo isso que ela provocou.

         Voltei ao rack, e vasculhei na última gaveta e por coincidência lá estava uma lanterna, que com algum golpe de sorte talvez estivesse funcionando.

         Aperto o botão e voilá, a lanterna se acende. o  roc ar as ch  es... Drog a ca  ta  stá f lh n d.”

 

         O preto da tela retorna, e agora a imagem está mostrando a repórter.

 

         Nessa parte da carta podemos notar que a caneta falha, o que impede Maurício de continuar seu relato naquele momento. Confiram no próximo bloco, a próxima carta escrita por maurício, e o mistério que começa a se desenhar à partir dos outros cômodos.

 

         David já está no terceiro copo de refrigerante quando o primeiro bloco acaba. E pelo que ele pode perceber, isso estava apenas começando...

Próximo capítulo: A Descoberta

3 Comentários:

Anônimo disse...

Favoritei a página, e espero logo ver os próximos capítulos

Patrícia disse...

Favoritei a página, e espero logo ver os próximos capítulos (2)

Alfer Medeiros disse...

Até agora está tudo bem instigante!
Aguardo a continuação.
Parabéns pelo trabalho!