Revolto

quarta-feira, 17 de março de 2010

O mar revolto, o céu escuro, o pavor no rosto de cada marujo que comigo desbravava aquele mar do novo mundo. Novas terras, novas mulheres, novos bens para pilhar... Yo-ho yo-ho! Realmente parecia um sonho. E seria mesmo, afinal léguas e tempestades a fio nosso glorioso Turbilhão Prateado nunca rangeu, seja para algum maremoto, ou tufão qualquer. Mas esse parecia diferente... estava diferente. Os antigos diriam que Netuno está mostrando toda a sua ira pelos nossos homens terem saqueado alguns velhos sacerdotes ou aberto algumas tumbas, importunando os mortos, ou até roubado alguns dobrões do ouro maldito em algum templo. Mas hoje em dia quem se importa com isso? Até onde sei, apenas devemos temer o gigante dos mares, com seus tentáculos monstruosos, e dentes que mais parecem pontudas e finas adagas, mas ainda assim ele não seria páreo para nossa velocidade.

Nossos canhões derrubariam até a mais alta estátua do planeta, Nossas velas fariam com que o mais rápido navio comercial do nosso mundo imaginasse que estava em meio a um redemoinho, só de pensar em seguir-nos tão grande é o solavanco sentido pelo agito das águas quando decidimos içar âncora e partir em busca de um novo alvo para pilhar.
Mas hoje era diferente… o céu sorria com suas nuvens escuras, como se imaginasse a nossa morte, como se saudasse nossos piratas sarnentos.
Então começo a observar lentamente cada um deles, e percebo na intensidade do olhar de meus fiéis companheiros a incredulidade de não saber o que está por vir. Olho para o céu e vejo aquele clarão... Em instantes vejo o primeiro raio direto à estibordo, estilhaçando boa parte do convés. Alguns correm para avaliar os danos, alguns se desesperam e jogam-se no chão, clamando por sua vida; pfff, que coisa inútil. Como se qualquer ser superior ao nosso poder de abordagem estivesse olhando com qualquer pingo de piedade.
Volto minha atenção para o céu... Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, penso, mesmo tendo certeza de que estou completamente errado...
Então veio o segundo estrondo. O raio cai dessa vez no bico da popa, derrubando nossos canhões traseiros, fazendo com que nosso mastro principal começasse a desmoronar encima dos barris de rum, e abrindo um rombo do tamanho da boca de um polvo gigante engolindo uma barracuda.
Os botes começam a descer. Família nenhum de nós mais carrega no coração. Homens do mar são livres de seus amores, porém presos com unhas e dentes pelo gosto salgado da água marinha. Mas mesmo assim todos prezam por suas vidas. Pensam em todos os barões de prata que ainda irão carregar em seus bolsos, todo o rum o qual ainda pretendem encher o bucho além, é claro, em todas prostitutas que ainda vão tomar nossa recompensa dos saques sempre bem sucedidos.
Estou só... Essa solidão me consome. Enquanto sinto a chuva tocar o meu rosto e as gotas escorrendo na minha face, percebo que o carvão ao qual pintei meus olhos falsos não mais serve para distrair o inimigo, já que começam a se desmanchar, como se fugissem dos grunhidos de todos que ali estavam... Vazio...
Oco…
O navio segue mergulhando, a quilha rachando, todos os mastros caindo… 
Juntos aqui, bravos homens aguardando o silêncio que em breve irá pairar por esses mares. O destino aguarda, como sempre, faminto pela nossa alma. Sinto já o mar em meus pés. Já não penso no amanhã afinal ele não mais me pertence ou me espera... À medida que o mar começa a entrar nas botas, sinto o frio da foice da morte tocar meus joelhos.
O navio afunda, e com ele seu capitão…
Quisera eu não ter surrado aqueles padres!
Ou talvez algumas moedas que saqueamos poderiam ter sido amaldiçoadas por algum velho feiticeiro daquelas águas escuras. Enfim, isso agora não importa.
- Nada mais importa! - 
E com esse pensamento último, ajoelho-me diante do esperado, enquanto o Turbilhão lentamente me engole para o fundo do mar...

2 Comentários:

Paloma disse...

ja tava com saudades dos teus contos =) Conto OTIMOOO! quando vai sai o livro hein?

Lino França Jr. disse...

Álisson, o conto está excelente. Eu não mudaria nada nele, mas talvez voce queira acrescentar mais algumas linhas e incrementá-lo, uma vez que, na antologia Bandeira Negra, seu conto pode ter até 10 mil caracteres. De qualquer forma, ele já está ótimo assim. Fica ao seu critério. Abraço.