Epidemia

quarta-feira, 3 de março de 2010

Segue transcrição de uma gravação encontrada em meio aos escombros da velha cidade de Pripyat:

“Já estamos entrando numa nova década, e em vez de nos preocuparmos com os problemas iminentes, como a escassez de água ou pra onde iremos jogar tanto lixo, temos que nos preocupar com a epidemia.


O ano já não importa. Se você está escutando essa gravação, por favor, nos ajude. A epidemia já está se alastrando por todos os cantos. No momento que vos falo isso, as forças armadas estão se reunindo em algum ponto da cidade em que o vírus ainda não chegou. Parece que conseguiram encapsular uma amostra, e devem começar a estudá-la o mais breve possível, mas ainda assim estamos distantes de um final feliz.

Já não sei em quem confiar. As pessoas à minha volta estão mudando a cada minuto. A causa disso é que, pelo que me consta, esse vírus altera a consciência das pessoas, mas talvez possa ser dito que as controla. Não se sabe ao certo. Gostaria que tudo fosse como num filme de terror de zumbis onde pessoas carniceiras andam e tomam balaços de 12 na cabeça enquanto corremos para nos esconder, porém a realidade é muito mais assustadora. As pessoas não têm olheiras, sangue, nem dentes afiados e bafo pútrido. Elas chegam, conversam com você e logo após matam sem piedade. Seus vizinhos, amigos, todas as pessoas que pareciam estar ao seu lado estão se transformando lentamente nesses assassinos frios. Já estamos praticamente sob o seu controle, e eu não acredito que há algo que possa ser feito.

Geralmente me assustaria ter um corpo estendido no meu jardim, com um machado cravado na cabeça, se não houvesse outros tantos no meio da rua, e mais alguns do outro lado. Todos provavelmente erraram em confiar na pessoa errada. Mas como disse antes, quem sabe em quem confiar?

Dizem que alguns até conseguem negociar, ou persuadir as pessoas para conseguir o que desejam, antes de iniciar a matança. Imagine você que está assistindo isso, acordar um belo dia com sua esposa ao seu lado lhe pedindo que prepare o almoço, em troca de alguns favores que você talvez já estivesse necessitado, e quando menos espera é apunhalado ou talvez empurrado para alguma quina de um móvel que você sempre pensou em tirar dali justamente por parecer perigoso.
Por Deus, se alguém estiver aí, por favor venha nos ajudar. Estou tomando essa iniciativa pois a esperança já não habita nossos corações, as pessoas que amamos já não estão mais nos conhecendo ou preocupadas conosco. Apenas querem sobreviver e matar. Não confiamos em ninguém, não olhamos para o lado, não saímos de casa.
Desconfio que os animais estão começando a perceber quando algo está errado. Não sei se os cachorros latem porque querem atacar ou por acharem que não existem mais aqueles humanos que eles conheceram. Dizem que as pessoas que conseguem fugir estão indo para uma ilha ao norte. Provavelmente tentarei ir para lá, afinal meu suprimento de máscaras está se esgotando, e a epidemia só aumenta,
tudo graças àquela maldita explosão. Todos foram avisados, mas não demos ouvido mesmo sabendo que isso poderia nos arruinar, mas nem assim nosso egoísmo e materialismo nos deixou fazer o que era certo. Testes... Pra que precisávamos fazer aqueles testes? Afinal já se ouvia falar que operar com uma energia tão baixa talvez fosse desencadear algo muito maior. A bateria está se esgotando. Espere! Estou ouvindo um barulho. A porta....

*toc* *toc* *toc*

(as próximas falas estão em um som muito baixo, algumas palavras são inaudíveis. Segue transcrição)

- Hey! Heeey, por favor em nome de Deus abra essa porta.
- ......... (nome não definido) o que aconteceu? Entre.
- Amigo, não sabia mais a quem recorrer, as coisas ali fora estão terríveis. Tentaram me prender em uma rede e me queimar vivo
- Acalme-se .................. comer alguma coisa?
- Não................................. Antes de sair..................... algumas reservas de comida que tinha em casa veja.
- Hum... Tomates, uma lata de creme de amendoim, espere, o que é isso? Por que você está com um pássaro morto na sacola?
- Pássaro morto?........................... nem idéia.....................
-MAS O QUE???

*gritos*

- OH MEU DEUS, PEGUE O FACÃO!

*mais gritos*

- MAS COMO ISSO PODE..................... *uma voz estranha no ambiente começa a falar algo que parece ser em outra língua*

*silêncio*

*um estrondo altíssimo*

*a câmera cai de lado, virada para a porta. Vê-se muito sangue no chão. Logo após, muitos barulhos indefinidos, sons muito altos e coisas caindo no chão. A câmera move-se um pouco mais para o lado, rachando de leve a lente. Vê-se pés muito brancos, porém maiores que o normal. Logo após, os pés somem, a porta se abre e fecha. A câmera fica mais alguns instantes ligada, então algo muito grande e disforme vem em direção à lente. Ouve-se um barulho de peças quebrando, possivelmente a própria câmera.*”

Até hoje a filmagem é analisada para tentar descobrir o que realmente aconteceu. As autoridades negam a filmagem, dizendo-se tratar de um vídeo caseiro feito para assustar os moradores das redondezas, mas peritos em vídeos confirmam a legitimidade.

6 Comentários:

Paloma disse...

isso merece ser publicado ^^

Junior disse...

Muito bom mesmo, parabéns.

Luciano disse...

Legal.... mistura de "Resident Evil" com "Eu Sou a Lenda" com "Bruxa de Blair" com "Sinais"... tudo no mesmo pacote... mas interessante...rsrs

MeU BloG disse...

Eu ja tinha dito que merecia ser publicado naum!

=D Parabens pelo conto!

Lino França Jr. disse...

Muito bom.
Este conto daria um belo roteiro de filme. Parabéns.

Lil' Jú # disse...

parabéns!! muito bom mesmo xD