Possessão

O pôr do sol daquela tarde estava fantástico. Ao longe, no horizonte, o astro-rei majestosamente ia se escondendo por detrás dos pinheiros, fazendo com que mais uma vez meus pensamentos se voltassem para a beleza do universo ao meu redor.


Aos poucos, a luz intensa tornou-se rubra enquanto a Terra parecia engolir o Sol. Por um instante tudo na minha vida fez sentido enquanto a brisa outonal tocava meu rosto.


Após retornar do transe provocado pela beleza da natureza trocando de cor, olho ao longe e um pequeno tufão de folhas começa a se formar. No começo não dei muita atenção, pois aquilo era normal essa época do ano. O vento ainda quente pela tarde de outono se encontrava com o ar frio da noite vindo dos campos e levantava algumas folhas, fazendo voar tudo que estivesse ao seu redor.


Um pássaro emitia seu toque de recolher, um coelho chamava seus filhotes para dentro da toca, os cães ladravam todos ao mesmo tempo, tudo no seu devido lugar, exceto pelo pequeno círculo de folhas que permanecia flutuando já por algum tempo.


Começo a ficar surpreso quando essa ínfima corrente de ar se aproxima cada vez mais de mim. Desligado, penso sobre o quão interessante seria estar dentro do olho de um furacão, ao passo que cada vez mais aquela formação vem ao meu encontro.


Decido levantar e começar meu caminho para casa, porém, ao virar de costas, o tufão vem em linha reta na minha direção. Tapo meus olhos e aguardo pelo encontro e...


Dor...


Dor?!


Dor!


Ao abrir meus olhos, uma dor incômoda sobe por todo meu tronco. Levanto as mangas e percebo feridas abertas, como se tivesse pego dezenas de giletes e passado profundamente de forma errática nos meus braços e abdômen, porém, sem nenhum sangue. Apenas pele rasgada.


O tempo se fecha e uma tempestade parece estar a caminho. Movido por essa dor intensa no meu corpo inteiro, começo a correr para meu carro enquanto vejo raios riscando o céu e nuvens negras se aproximando rapidamente.


- Como não percebi isso antes?!


Entro no carro e dou a partida... nada. Nem sinal do motor. - Mas que droga - penso, enquanto escuto as primeiras pedras de granizo batendo na lataria. Decido esperar um pouco pra ver se a chuva ameniza, mas começo a me preocupar quando percebo que o local onde deixei o carro torna-se perigoso à medida que a água começa a descer, pois a descida da colina em que eu estava dava direto no rio.


A chuva se intensifica. Uma cachoeira começa a se formar em minha direção e então o pior acontece. A terra desliza e minha proteção se vai junto com ela. Em um segundo estava na proteção de aço e no outro estava nadando para a superfície do lago enquanto meu precioso carro afundava.


Ainda em choque pelo que estava acontecendo, começo a nadar sem saber direito para onde, pois a escuridão da noite me deixava cego. Após alguns minutos nadando, que pareciam horas, chego a uma das margens do rio. Assim que meus olhos se acostumam com a escuridão, percebo uma pequena cabana fechada e uma fraca luz saindo pelas frestas da janela. Molhado e cansado, bato na porta na esperança de encontrar alguém, ao que prontamente um casal de simpáticos idosos me atende e me convidam a entrar.


Peço para passar a noite e eles me oferecem uma toalha e roupas secas que aparentam terem sido deixadas para trás, talvez pelo seu filho.


Após um longo e delicioso banho quente, entro no quarto que me indicaram e começo a me vestir.


Limpo, aquecido e renovado, vou até a cozinha rústica jantar um prato de sopa com eles e começo a contar como cheguei ali. Tudo ia bem até que levantei as mangas e mostrei as feridas.


Um prato cai no chão.


A senhora que estava com seu prato nas mãos para uma segunda rodada, solta um gritinho apavorado e o deixa escorregar até tocar no chão e se quebrar em dezenas de pedaços.


- Meu filho, isso é coisa ruim, muito ruim - diz ela, se apressando para ir até seu quarto.


O senhor se afasta um pouco de mim e começa a contar as lendas locais sobre espíritos ruins que se apossavam de viajantes, deixando cicatrizes e marcas. Ouço atentamente, mas por dentro sinto um misto de vontade de rir com um certo tom de medo. Sentimento interessante, penso.


Cético que sou, prefiro ignorar o barulho da senhora fazendo suas orações intercaladas com a frase coisa ruim, coisa muito ruim. Explico que não consigo acreditar que essas coisas existam, mas aceito a sugestão de irmos até a igreja local. Nesse momento descubro que na verdade essa é uma pequena comunidade isolada da cidade.


Pegamos guarda-chuvas para todos e saímos na chuva, que tinha dado uma amenizada, e andamos alguns metros até o santuário no centro do local.


Lá chegando, conversamos com um velho sacerdote, que no mesmo instante começa a me pulverizar com água benta e alguns incensos com cheiros estranhos. Minha vontade é de rir, mas mantenho a compostura e aguardo enquanto, logo após o sino tocar três vezes, mais alguns moradores chegam e me olham com expressões de incredulidade e medo em seus rostos.


Após alguns minutos de conversa sobre o que deveria ser feito, aceito uma mistura de ervas que me é oferecida pois, segundo eles, poderia me ajudar aquela noite. - Você precisa dormir - disseram.


A noite chega ao seu ápice do exagero quando todos decidem passar a noite dentro da igreja, afinal, seu solo sagrado faria com que os espíritos ruins fossem embora e nos protegeria. Por não ter como sair de lá e nem ter pra onde ir, aceito a sugestão. Nos acomodamos todos nos bancos e nos cobrimos com grossos edredons afinal, a noite ainda estava mais fria que o normal para essa época do ano. Lentamente começo a pegar no sono. Antes de dormir completamente, ainda consigo ouvir o padre cochichando que alguém precisaria ficar acordado a noite toda para cuidar de mim. Afasto as piadas que surgem na minha mente e aos poucos vou me entregando para o gostoso sentimento de conforto que estava tomando conta de mim...


...


Os primeiros raios de sol batem no meu rosto e acordo na minha cama, com os lençóis encharcados. A manhã era quente e eu estava todo suado. - Foi tudo um sonho - penso, enquanto vou correndo até o banheiro iniciar minha higiene matinal, pois estava atrasado para o trabalho.


Faço um sanduíche rápido, repassando o sonho da noite anterior para não perder os detalhes, - O pessoal no serviço vai rir muito disso - penso eu, enquanto pego as chaves e saio do meu apartamento, apressando o passo.


Enquanto isso, passando completamente despercebido ao meu olhar, na soleira do apartamento defronte ao meu, o jornal matinal exibia em letras garrafais a sua manchete do dia:


UMA NOITE SANGRENTA.
Comunidade local amanhece sem vida e massacre choca a cidade.

O Salto Último

A fumaça invadia o quarto. Cada poro do seu corpo exalava o cheiro daquele charuto velho cubano encontrado um pouco mais cedo no fundo de um baú empoeirado.

A chuva caía em uma forte tormenta lá fora. Cada gotícula se acumulava em formatos estranhos, escorrendo de forma quase poética ao longo do vidro da janela daquele 13º andar.

A tinta escorria pelo papel. Os traços daquele que seria seu último texto iam se desenhando com letras irregulares, o texto que marcaria o fim da sua jornada.

O suor escorria pela testa. Ele não sabia como ficar indiferente em face de tudo aquilo que sabia que estava reservado em seu destino.

A vela crepitava em seu repouso. Uma única vela, em cima de um único castiçal bailava, criando formas dentre as sombras do seu aposento.

As lágrimas insistiam em cair. Seu rosto, já demonstrava os traços da sua transformação. A expressão dúbia de quem demonstra que sua amargura está no limite, lutando contra seu maior medo e ao mesmo tempo sereno o suficiente para aceitar seu destino substituía seu semblante, outrora sempre jovial e com um sorriso sincero. Essa não era mais sua face à muito tempo.

As luzes da cidade criavam formas quase abstratas lá embaixo. Saberia alguém nesse mundo o fardo que estaria prestes a enfrentar? Nunca foi de ter muitos amigos, sua solidão sempre fora a maior companhia. - Ela sentiria a minha falta?

Levantou-se. Largou a pena no tinteiro, que suavemente se encaixou, pendendo um pouco à direita e tragou mais uma vez aquele charuto. Tossiu quando a fumaça encontrou sua garganta. Sabia que não deveria tragar, mas seu instinto falou mais alto. Encostou-se contra o vidro da sacada e passou os dedos levemente nas formas criadas pelas gotas de chuva. Sentiu o frio percorrer sua espinha. Virou-se de costas e deixou essa sensação percorrer sua espinha. De alguma forma ainda sentia-se… vivo, mesmo que sua mente insistisse em dizer o contrário. Puxou do bolso da calça o que estivera escrevendo. Passou os olhos lentamente em cada letra, até sua assinatura no final. Até a frase… aquela frase.

Secou a última lágrima que escorreu do seu olho direito, abriu a sacada e respirou o ar outonal. O frio novamente o invadiu, porém agora pelas suas narinas. Sentia-se fraco, sentia-se debilitado, sentia frio.

Largou vacilante a folha, caminhou até o parapeito. Sentou-se ali, admirando as luzes dos postes.

Ergueu-se. Primeiro o pé direito. Então o esquerdo.

Virando-se para a rua, deu seu último suspiro antes de largar-se na imensidão que cobria a distância até o solo.

A vela apagou-se.

Então… o silêncio…

E na folha, a última frase escrita podia ser lida em um papel debilmente amassado…

...foi por você...

[Pré] Livro Review - O Titereiro dos Mortos

OMG Álisson, seu blog ressuscitou dos mortos e você voltou a escrever?

Quem sabe amiguinhos, quem sabe. Afinal hoje vamos falar justamente de alguém que tem o poder de controlar os defuntos... Com vocês, mais uma review em PRIMEIRÍSSIMA MÃO: O Titereiro dos Mortos.



Novamente, como aconteceu com Morgan: O Único, que vocês acompanharam aqui no Depósito de Contos a primeira review, tive a honra de acompanhar a passagem deste livro diretamente da mente maluca de Douglas Eralldo, para o papel (digital vai, mas mesmo assim é papel).



- Álisson, você foi o backup do Douglas de novo? Vai dizer que ele perdeu o pendrive dessa vez? - Nãããão \o/. O que não quer dizer que ele não tenha apagado sem querer algum arquivo no meio da concepção da história e eu tive que recuperar o backup que eu tinha no meu pc =x.

Enfim... Como eu ia dizendo...

Já no prólogo, somos convidados a conhecer a história de Daniel, um garoto pobre, morador da Vila Cruzeiro, em Porto Alegre. Profundamente deprimido pela morte do seu melhor amigo, o cachorro Bolota, e em meio a lagrimas e fungadas, ele descobre que tem um poder um tanto quanto peculiar. As palavras que proferiu, fizeram seu grande amigo retornar de seu descanso eterno e também mudaram a vida de Daniel para sempre.

Para quem acompanhou o livro Morgan: O Único, vai notar algumas diferenças, mesmo com a temática sendo parecida. Apesar de manter a mesma pegada de capítulos curtos e que deixam o leitor louco para devorar completamente as páginas do livro até o seu final, dessa vez Douglas nos traz uma narrativa voltada mais para o público dos grandinhos (para a alegria de muitos). Com muitas passagens verdadeiramente picantes e outras realmente nojentas (poxa é uma história de zumbis, você esperava o que?!) a história vai fluindo nos mostrando os dilemas passados pela mente doentia de Daniel, capaz de qualquer coisa para atingir os seus objetivos (dominar O MUNDO MWAHWAHWAHWA) afinal, outro aspecto diferente e também pouco explorado na literatura é o fato de que Daniel não apenas pode levantar os mortos de suas tumbas mas, como você já deve estar imaginando pela arte/título do livro, ele também pode controlá-los. Como não poderia deixar de ser, são explorados os dilemas encontrados por Gabriel, seu irmão e maior inimigo, pois ele gosta do mundo do jeito que ele é e não gostaria de vê-lo dominado por... criaturas estranhas, mesmo que para isso seja necessário enfrentar seu próprio irmão.

Porém, engana-se quem pensa que a única batalha é entre Gabriel e Daniel. Nas idas e vindas desta dupla, acabamos por conhecer Zé Paulada, o chefe do tráfico da principal favela de Porto Alegre, e que sente-se muito incomodado por seus negócios estarem sendo atrapalhados por pessoas tão difíceis de matar.



Uma das características interessantes é que, assim como era feito nos primórdios das escritas sobre zumbis, onde além de entreter os leitores, o teor das narrativas buscava fazer fortes críticas à sociedade e uma reflexão sobre o mundo em que vivemos, Douglas nos traz diversos conflitos políticos, escândalos religiosos, corrupção e diversas outras sutis críticas que, ao seu modo, nos mostram o quão frágil é nossa sociedade e como estamos imunes às decisões daquele quem detêm o poder e o quão fracos somos à frente daqueles que, apesar de não estarem ligados ao governo, infelizmente também detém o poder.

Pra você que deve estar se perguntando - e aí Álisson, vai ter romance na jogada? - eu lhe digo. CERTAMENTE \o/. Porém infelizmente não vou deixar muitos detalhes para não dar nenhum tipo de spoiler, mas deixe sua imaginação fluir e preparem-se para altas emoções.

Você que também gosta de ação, ééé, você mesmo... para sua alegria, não são poucas estas cenas, com detalhes tão ricos que você vai poder sentir o cheiro pútrido dos mortos sendo chamuscados por saraivadas de balas em diversos conflitos armados espalhados ao longo do livro.

Se você gosta de zumbis, aprecia a literatura fantástica ou apenas quer utilizar muito bem algumas horas do seu dia com uma ótima narrativa, não deixe de conferir o novo livro de Douglas Eralldo: O Titereiro dos Mortos, com lançamento marcado pra dia 13 de abril, em Porto Alegre, na 2º Odisseia da Literatura Fantástica. Mas já vou avisando: Cuidado. Não comece a ler esse livro caso seu tempo esteja curto, pois vai ser impossível parar antes de chegar ao final.


Daquela vez, era como se as almas ao regressarem à matéria inerte e morta reclamassem da escravidão. Mas mesmo assim, as palavras estranhas para os homens, e o ritmo da canção as impulsionavam de volta aos corpos abandonados em buracos e jazigos.
Terminada a canção, Daniel estava em pleno êxtase. Excitado, ejaculou sob a túnica como forma de aliviar todos os sentidos de seu corpo. Suas pernas bambearam.
Quando finalmente Daniel abriu os olhos, uma multidão de criaturas disformes e apodrecidas aplaudiam-no lentamente.


Não deixem de conferir e prestigiar esse grande lançamento da literatura fantástica nacional. Confiram O Titereiro dos Mortos, por Douglas Eralldo.

Abraços pessoal :)

Ontem eu vi um cara


Ontem eu vi um cara.
Não era belo, não era feio, era apenas um cara.
Seu rosto era composto de uma barba rala, mal feita; uma ou duas noites mal dormidas que causaram um roxo profundo de olheiras mas, o que realmente me chamou atenção naquele cara era a ausência da própria sombra ao passar pela luz.
Era noite, um poste após outro ele ia passando, e a sombra ligada a seus pés não se formava, não andava junto.
Seu olhar era marcante. Um olhar distante, longo, perdido.
Esse homem andou até a mais alta ponte seca da cidade.
Subiu no parapeito e olhou para baixo.
Seu cabelo desgrenhado voava ao vento enquanto ele analisava a queda.
Então o homem, que já tinha decidido o que estava para fazer, colocou os pés mais para frente, alinhados com o final da ponte.
E com aqueles olhos azuis e a face cansada ele me viu.
E com o susto que teve, se desequilibrou e seu corpo foi jogado pra trás, fazendo-o cair com as costas no asfalto.
Foi então que uma luz muito forte o iluminou.
Uma luz forte, que mesmo parecendo poder cegá-lo, ainda assim não produziu sombra alguma.

Então minha missão foi cumprida. Seu crânio foi achatado pelas rodas do caminhão.

Prazer, eu sou a morte!

E quando até mesmo a sombra é capaz de te abandonar, é sinal de que eu estou espreitando... E de uma maneira ou de outra, eu vou te levar...

Sangue por Todos os Lados


Sangue... sangue por todos os lados.

Sangue nas paredes, na cortina, na capa do sofá. Capa que me custou exatos 72 reais na feira de móveis usados. O tom vermelho contrastou de uma forma intrigante com o azul da capa do sofá. Capa esta que me custou 72... ou seriam 73 reais?

Droga. Odeio me esquecer das coisas. Onde eu estava mesmo? Ah sim... Sangue... sangue por todos os lados.

Vejo muito sangue mas não vejo nenhum corpo. Não vejo um corte ou um ferimento. Não vejo vítimas, assassinos, ladrões nem nada parecido. Se houvesse um ladrão ele teria levado meu abajur. Lindo abajur com as faces formando uma espécie de guarda-chuvas de cristal, com pêndulos cristalinos na ponta. Quanto eu paguei por ele mesmo? Droga. Odeio me esquecer das coisas.

Nossa, olha o carpete. Carpete lindo de manta com três cores diferentes formando uma espiral no centro. Cheio de sangue, droga, olha quanto sangue. De onde será que vem?

Peraí. O que é aquilo atrás do sofá azul cheio de manchas de sangue? Que desperdício de dinheiro... sangue mancha sabia?

Está reluzindo, brilhando, ofuscando minha visão...

É uma faca. Rá! Acho que finalmente achei a arma do crime. Será que houve algum crime?

Ei! Um corpo caído. Nossa esse rosto parece familiar. Onde será que eu vi ele antes?

Deixa eu tentar me lembrar... Abajur cristalino, 72 ou 73 reais, faca... JÁ SEI. Esse é o meu rosto.

Sou eu que estou deitado com o abdômen aberto e as tripas no chão... Como eu não me lembrei disso antes?!

Droga. Odeio esquecer das coisas.

A Porta dos Sonhos


- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHH - gritou Pedro ao acordar de seu pesadelo.
Os braços tremiam e o suor escorria de sua face, gotejando no lençol branco e já umedecido.

Assim que retomou sua consciência e percebeu que já estava novamente no mundo físico, Pedro fechou os olhos e recostou sua cabeça no travesseiro para tentar se lembrar em detalhes do que havia acontecido, pois assim que levantasse, a bolha que cobre as lembranças iria se romper e com ela tudo o que havia de mais belo em seu pesadelo iria se desfazer. E isso seria trágico para um devaneio muito bem tramado por sua mente que, com certeza, em algumas horas iria se tornar um conto nas páginas de seu blog na internet.

Pedro sempre achou estranho na maneira como os seus sonhos insistiam em serem tão cheios de detalhes. Tanto que não era nem um pouco difícil transcrevê-los no seu computador.

Porém as coisas estavam mudando aos poucos a cada dia. Essas imagens que formavam suas histórias apenas em sonhos, começavam a se apresentar defronte aos olhos quando Pedro estava desperto também. Quando se concentrava, seja para resolver algum problema no trabalho ou em algum momento de meditação rápida, sempre conseguia imaginar uma porta ao seu lado esquerdo... "a porta dos sonhos", como gostava de pensar.

A fechadura que essa porta continha era pequena o suficiente pra não deixar Pedro olhar o que havia do outro lado, além de ser uma pequena brecha que reduzia sua visão à apenas um pequeno detalhe da cena.

Caso esse detalhe chamasse sua atenção, Pedro sentaria em sua cadeira, abriria seu Bloco de Notas e começaria a descrever o que viu. Nesse momento, seu mundo seria desligado e apenas a porta estaria à sua frente.

Quanto mais palavras apareciam na tela, mais Pedro se aproximava da porta e quanto mais Pedro se aproximava da porta, mais partes da cena poderiam ser vistas. Assim, vez por outra sua mente estava sendo entregue à porta dos sonhos de maneira desperta. O que ele não sabia, era que o mundo estava prestes a passar por uma mudança...

E essa mudança iria custar a vida de milhões de pessoas caso Pedro não achasse a chave certa que abre a sua porta dos sonhos...

Devaneio dispersado


- CRAAAW, CRAAW - fez o corvo voando pela janela, acordando-o de suas divagações.
Ele odiava quando seus pensamentos eram interrompidos de forma brusca, mas ultimamente isto se tornara uma rotina.
Não tinha ideia do motivo pelo qual os pássaros estavam tão agitados pelas redondezas, mas não perdia muito do seu precioso tempo tentando descobrir.

Quando voltou a focar os pensamentos nos códigos que estava digitando para tentar fazer um software qualquer voltar à funcionar, se deu conta de que sua bexiga estava a ponto de explodir.

Afastou sua cadeira alguns centímetros, bloqueou o computador para ter certeza de que ninguém iria futricar nas suas coisas - não que existam coisas muito secretas aqui nessa máquina - pensara, mas odiava imaginar seus colegas mexendo em um ícone que fosse da área de trabalho.

Abriu a porta e caminhou até o banheiro, que ficava na porta ao lado. Ao abrir o banheiro, sentiu um cheiro nojento vindo de dentro. - Malditos cagões - pensou.

Ao tentar abrir a porta de um dos dois box, constatou que a mesma estava fechada. - Custa perderem a mania de trancar a porta antes de sair do banheiro? - Esses pequenos incômodos eram o que transformavam um dia ótimo de trabalho em um dia repleto de rancor.

Após fazer suas necessidades notou que, ao se dirigir à porta do banheiro pisou em uma poça. Qual não foi sua surpresa quando percebeu o vermelho vivo que aquele líquido reluzia.

Assustado, saiu correndo tropeçando nos próprios pés quase batendo de cabeça na parede em frente. Por sorte um funcionário da manutenção do prédio estava passando e, ao perceber o que tinha causado aquele susto, rapidamente entrou no banheiro para destrancar a porta, pois a poça vinha de lá.

Ao abrir a porta, nenhum dos dois consegui segurar o almoço dentro do próprio estômago.

Sentado ao vaso jazia um corpo sem cabeça. Mesma cabeça essa que estava faltando no alto do corpo, encontrava-se embaixo da tampa, teimando em trancar o fluxo da água e transbordar um rio de sangue e água encanada...

Livro Review - Fios de Prata [Reconstruindo Sandman]



“Tu inspiraste Rowling, e foi nas terras de Morpheus que se moldou Hogwarts. Tu inspiraste Tolkien, e foi nas terras de Phantasos que se anexaram as extensões de Terra-Média. Tu inspiraste Lovecraft e em minhas terras se fixou Miskatonic. Então eu te pergunto com sinceridade, anjo: até onde vai tua vontade de ser coadjuvante em um mundo de formas e pensamentos?”

Bom. Eu acabei neste momento de ler o livro Fios de Prata, do Raphael Draccon e simplesmente não tenho ideia de por onde começar essa resenha/review.

Este livro traz como enredo o mito de Sandman (Criado por Neil Gaiman), ou, Morpheus, um Deus-Menor Grego, governante do Sonhar.

A criação de Gaiman é tão influente na literatura que em algumas vezes chega até a ser confundido com o próprio deus mitológico e, como cita o Raphael, isso é um dos estopins que dá origem aos conflitos no Sonhar na história do livro, em meio a acontecimentos que entrelaçam ficção e fatos reais e alteram a realidade humana.

Como de praxe, vou tentar não fazer spoilers pois, sabe como é né... Spoiler é mal, não faça spoiler, spoiler nao presta :P, porém, citando a trama, Mikael Santiago, conhecido como Allejo é nosso personagem principal. Um homem disposto à descer até os círculos do Inferno em busca do amor de sua vida.

Através disso se desenha uma guerra de proporções capazes de colocar em risco sete bilhões de sonhadores na face da terra e além.

Em um primeiro momento (fugindo um pouco da história do livro), eu comecei a lê-lo pois sei da qualidade do autor e com certeza iria viajar à terras distantes, e passar momentos incríveis com o pensamento longe do corpo percorrendo as páginas do livro.

Porém ao começar a lê-lo (pouco eu sabia do mito do Sandman), eu comecei a me identificar de uma outra maneira com o livro. A trama se passa no Sonhar, e a frase destacada no livro nos leva a perceber que o Anjo dos Sonhos é o responsável por influenciar as grandes obras da literatura, os grandes artistas que já passaram pela orbe terreste. E isto me chamou atenção justamente porque 90% dos contos encontrados aqui no blog foram sonhos que tive e, quando acordei, transcrevi-os para o computador, transformando-os em histórias.

Então comecei a ler sem expectativas, apenas aguardando o que estaria por vir. Mas o que aconteceu foi  algo quase surreal.

Logo nas primeiras páginas, minha atenção se prendeu ao livro de uma maneira que dificilmente eu consiga lembrar alguma outra vez que tenha acontecido.

Em um dado momento, eu estava correndo os olhos nas frases quando o personagem principal estava correndo perigo, e logo depois consegui me sentir no meio de uma pista de dança apreciando uma dança sensual que me fez delirar.

Esta atenção conseguiu ficar aprisionada no livro até... pasmem... o último virar de folhas.

Meus pensamentos, por vários momentos, se uniram aos sonhos e pensamentos bons de mais de sete bilhões de sonhadores em busca de um ideal.

As páginas finais do livro são um caso a parte. Ao contrário do que acontece com boa parte dos livros que li ultimamente, o desfecho, ao invés de decepcionar ou dar uma decaída, é praticamente duas vezes melhor que o decorrer do texto. O final é impressionante e surpreendente, fazendo com que o leitor se mantenha no livro até [conseguir] fechá-lo. Estas páginas exalam amor, bondade e esperança. É possível sentir seu próprio coração pulsando na garganta, transformando aquelas palavras em esperança; em fé. Em amor.


Ao contrário da trilogia Dragões de Éter, em que um público, na minha opinião, mais jovem é atingido, este livro desde as primeiras páginas nos faz entender que desta vez, a fantasia busca atingir um público mais maduro, busca tocar fundo no coração das pessoas para que elas possam parar e refletir sobre o que está acontecendo ao redor delas.


Me desculpo pela minha limitação terrena em não conseguir pensar em palavras capazes de descrever as emoções que passaram por mim ao ler este livro, do princípio ao fim. A única coisa que posso fazer é recomendar fortemente que todos leiam-no, pois a mensagem contida em suas páginas, transcendem o limite da fantasia e tocam fundo na alma.

E o adendo à leitura do livro, fica minha jornada Épica pela Bienal no Domingo, passando a cada 20 minutos na Leya, perguntando pras atendentes se o Raphael estava no estande para que eu pudesse autografar o livro... Até que quase 19 horas da noite CONSEGUI finalmente meu autógrafo \o/.

Nota: 10



De Raphael Draccon...

Fios de Prata
           Reconstruindo Sandman

Contos & Sons - Resultado Final


Peraí... Deixa eu ver se entendi. Tem postagem nova no Depósito de Contos? =O Não acredito, me belisquem que com certeza é um sonho... AI... não tão forte...

Bom pessoal. Depois de muito postergar, decidi anunciar o resultado da promoção feita ano passado, Contos & Sons. 

Milhares de pessoas (rsrs) vem me cobrando isso ao longo do tempo, e como desde ano passado não escrevo mais nada (sim, podem me chingar), não tinha mais postado nem músicas nem contos nem NADA...

Mas como eu não podia deixar mais um projeto engavetado, estou aqui anunciando o Resultado Final da promoção Contos & Sons.

Contos & Sons - Solução [5]




Bom dia, boa tarde booooooa noite, dependendo do horário que esse post está sendo aberto no seu computador.

O conto de semana passada do Contos & Sons pelo visto foi algo complicado, visto que poucas pessoas comentaram, e isso me leva a crer que o desafio está perto do seu final. Apenas os mais fortes sobreviveram até aqui hehe.

Confiram aí a resposta, pois estamos de volta.

Contos & Sons [5]


Então pessoALL legal, como tem passado? Pois olha que legal, o blog NÃO MORREU (fogos!!!). Após uma longa pausa, energias renovadas e meu título de Bacharel em Ciência da Computação no currículo, voltei para dar a vocês o que tanto tem me pedido. O próximo desafio do Contos & Sons. Estamos na reta final, e poucas músicas faltam ainda para decidir quem irá levar pra casa o exemplar do Bandeira Negra.

Mais uma vez peço desculpas pela demora para postar, mas garanto à todos que foi por uma boa causa. Um grande abraço à todos.

Com vocês...um rápido e fácil Contos & Sons 5!!!

Crônica - O dia em que a mídia livre mudou caráteres

A notícia que se espalha rapidamente pela pacata Passo Fundo, é as antigas leis municipais n° s 4.310/06 e 3.784/01 que estabeleceram sobre a abertura e instalação de supermercados, hipermercados e assemelhados na área urbana, que limita a 1.500m² de área de venda, pelo prazo de 10 anos.

Essa lei foi recentemente vetada pelo prefeito Airton Dipp, o que gerou toda a discussão em que estamos inseridos.

Algumas pessoas, denominadas vereadores, resolveram por livre e espontâneo achismo (para não citar outros termos mais fortes) que isso de alguma maneira desfavoreceria a economia local e traria malefícios para a cidade. De alguma maneira sobrenatural e desconhecida, levaram em conta o interesse de alguns para tentar barrar o veto do prefeito.

Segue alguns trechos do jornal local O Nacional:

O presidente da CDL de Passo Fundo, Roberto Estivallet disse que o município perderá com a instalação de grandes redes. “Quando vêm grandes mercados, a arrecadação se concentra na matriz das empresas. O município perde em arrecadação e a falta de arrecadação reflete no bem estar da população”, disse Estivallet.


Ele argumentou que esses hipermercados vendem em um primeiro momento, a ideia de preços baixos, mas meses depois quando dominam o mercado, eles aumentam os valores e diminuem os empregos. “A população que estava sendo beneficiada perde em termos de economia, impostos e emprego”, argumentou o presidente da CDL. A presidente do Sincomércio, Sueli Marini esclareceu que as entidades não são contra o desenvolvimento do município, apenas estão defendendo o comércio local. Essa opinião foi compartilhada pela Acisa e pelo Sincogêneros.

Peraí amigões. Deixa eu entender. A vinda de Hipermercados irá PERDER empregos? Isso irá REFLETIR EM FALTA DE ARRECADAÇÃO??? Me convençam como... "Procura-se empregados, mas não serão aceitos nativos de Passo Fundo". Ah por favor né? Passo Fundo está inserida no RS, que está inserido no Brasil, que faz parte do MUNDO GLOBALIZADO, então os únicos inteligentes do Brasil estão aqui em Passo Fundo, querendo fechar o mercado, voltar no tempo em que era tudo fechado e proibido!! Parabéns!!!! --> dentro de alguns anos estaremos competindo com EREBANGO (Perto de Erechim - nada contra os Erebanguenses).

Segue transcrição de alguns argumentos:

“Se ninguém me provar o contrário, não vou mudar o meu voto. A população está mal informada sobre essa discussão”.
Vereador José Eurides de Moraes (PDT) – líder da situação


Meu caro vereador, o mercado se regula por sí só, historicamente comprovado, (é só estudar um pouco de Economia, ou consultar alguém que entenda, ou ver o que aconteceu no Brasil nos últimos 20 anos) toda e qualquer tentativa no sentido contrário prejudica o consumidor - leia-se ELEITOR.

“O prefeito votou pela inconstitucionalidade, só que o veto não foi técnico e sim político. O prefeito em sua argumentação coloca que desde 2005 ele pensa na geração de emprego e renda e por isso não pode concordar com a ideia de limitar o mercado. Esperava um veto técnico, mas foi uma decisão baseada na opinião dele. Criou-se uma ideia de que a vinda de hipermercado traria incremento na arrecadação e isso não acontecerá. Não estamos proibindo a vinda, só estamos limitando o tamanho em 2 mil m². Quem quiser vir tem que disputar o mercado nas mesmas condições”. Vereador Rafael Bortoluzzi (PP)


Imaginem caros ELEITORES, que na sequência teremos outras leis... Só umas três imobiliárias, umas duas farmácias, um cinema, duas padarias, três lojas de roupas, tudo dentro da medida das que já existem... Parabéns amigões inteligentes... os outros que se f****, e o povo vai ter que comprar só desses... e provavelmente (se deixarmos) uns 80 vereadores. Disputar o mercado nas mesmas condições? Peraí... isso significa: Quem se importa com o crescimento da cidade? O legal é ficar tudo estagnado.... Revoltante senhor Rafael, revoltante.

“O próprio autor votou contra o projeto. Num primeiro momento essas grandes redes vão oferecer um preço baixo, mas depois elas vão ditar os preços. Estamos com falta de mão-de-obra. Isso não vai gerar mais emprego vai apenas levar o nosso dinheiro para outro país”. Vereador Rui Lorenzato (PT)


Pois é caríssimo... vamos criar uma lei proibindo gente de ir -levar dinheiro- gastar em Porto Alegre, Rio de Janeiro, fazer cursos que não sejam em Passo Fundo, viajar para o exterior, etc... é isso aí COMPANHEIRÃO. Temos que proibir o pessoal de sair da cidade com dinheiro. (menos os vereadores, claro). Amigo... Falta de mão-de-obra? Não vai gerar empregos? Peraí... eu acho que faltei à essa aula no meu ensino fundamental.

“A vinda de grandes redes afeta todo o comércio, não só os supermercados. Não vai gerar novos empregos. Vamos ter que dividir uma pizza com empresas de fora e não vamos receber um pila. A arrecadação vai toda pra fora. Minha opinião não muda e vamos derrubar o veto”. Vereador Aristeu Dalla Lana (PTB)


E pra finalizar com chave de ouro, essa reunião de asneiras:

“O Dipp deixou a base de saia justa e de repente ela ficará arranhada. A população quer a derrubada do veto a qualquer preço. Provavelmente vou manter o meu voto. Não é um atraso para Passo Fundo e acredito que estamos bem servidos com os mercados existentes. A decisão do prefeito foi política”. Vereador Roque Letti (PDT)


Então senhor vereador Roque, A POPULAÇÃO QUER A DERRUBADA DO VETO? De todas as besteiras que li esse dia creio que esta foi a maior. Me diga por favor, de que população está falando? A população de donos de mercados?

Bom, vamos tentar entender como a população pensa:

Interativa de ON
A grande maioria dos internautas que participou da enquete desta semana sobre a instalação de hipermercados em Passo Fundo, é favorável a liberação de área. A interativa perguntou:
Você concorda que seja permitida a instalação de grandes redes de supermercados na cidade?

Opção 1 - 96.08% - Sim
Opção 2 - 2.52% - Não
Opção 3 - 1.4% - Indiferente


Esse foi o primeiro indício de que algo estava errado. Após essa manifestação dos vereadores, a população começou a se manifestar pelo único meio livre encontrado. A internet.

Pelo site de relacionamentos Facebook, Alexandre de Mattos criou uma manifestação pelo aplicativo Causes, recrutando passo-fundenses para se unir à causa "Queremos Hipermercados em Passo Fundo". Em pouco tempo mais de 350 pessoas já se uniram à causa e mais de 1000 já 'curtiram'. Motivando Deputados a fazerem o mesmo, como pode ser visto pela seguinte notícia:

O Deputado Dr. Diogenes Baseggio através do seu Twitter @depdrbasegio enviou a seguinte mensagem: "Esperamos bom senso de nosso legislativo municipal de Passo Fundo para que novas lojas de supermercados se instalem em nosso município"


O perfil do site Twitter @PassoFundo_, que conta com mais de 4 mil seguidores, seguidamente transmite mensagens de internautas insatisfeitos com a decisão dos vereadores, como pode ser visto em algumas mensagens:




Então a população está querendo derrubar o veto? Estamos mal informados? A rede Extra abriu 200 vagas de emprego em SP e aqui não irá gerar nenhum? Qual é realmente a população favorecida no discurso dos vereadores?

Discute-se que irá quebrar os pequenos mercados, a vinda de grandes redes. Eu me pergunto, mercados pequenos (que não quebraram com a vinda por exemplo, do Bourbon) realmente serão afetados? As pessoas que compram ao lado de suas casas, realmente irão até o centro para fazer suas compras? Isso pra mim parece conversa do século passado.

Esta mesma argumentação FURADA foi levantada quando da vinda do Bourbon para Passo Fundo, e os AVIÕES querendo tirar uma casquinha... aproveitaram e se lascaram... O bourbom está aí e nada de anormal aconteceu, o mercado se regulou por conta própria.

Espera-se realmente políticas de compensação, e leis que impeçam o lucro de sair completamente da cidade, mas realmente, qual o malefício encontrado?

A cara de pau chega no ápice, quando percebe-se que algumas pessoas que se diziam contrárias ao prefeito, após essas manifestações da população (que supostamente seria contrária também) começam a fazer manifestações dizendo que "sempre foram favoráveis ao prefeito" e demonstram que estão dispostos a se "aliar à população" nessa luta.

Até onde irá chegar a hipocrisia de certas pessoas?

Esse debate está sendo muito importante para desmascarar quem tem culpa por baixo dos panos e mostrar quem realmente está do lado do povo.

Muito obrigado por esse esclarecimento.

A Promessa


Lá estava eu. Sentado em frente ao computador, lendo sobre como é importante passar para o papel os personagens antes de começar a escrever. Nunca dei realmente muita atenção pra isso, pois meus personagens são formados de relâmpagos de inspiração que saltam na minha mente.

Eu sabia que a inspiração estava ali, na ponta dos dedos. Tinha tido um desses flashes alguns minutos antes e sabia que logo a cena iria se formar. A paciência é uma grande virtude numa hora como essa. E comigo realmente não era diferente.

Então as frases começaram a se desenhar como em uma sopa de letrinhas...

“...Ela com os cabelos recém saídos de um gostoso banho morno, aquele cheiro de shampoo de frutas solto no ar, invadindo minhas narinas e fazendo com que a adrenalina jorrasse meu sangue cada vez mais rapidamente para o meu corpo, fazendo com que meus pensamentos não mais me obedecessem, de fronte àqueles olhos castanho escuro...”

E quando terminei o parágrafo a cena se desfez. A dificuldade de criar contos é justamente a de que a história nunca fica clara na cabeça. As cenas são construídas quadro a quadro, e sem qualquer indício de começo ou fim, um instante qualquer perdido no tempo é o argumento chave para a criação de uma quantidade qualquer de folhas necessárias para a descrição do que está acontecendo.

Minha mente nunca foi privilegiada com o dom de criar traços e fazer com que a cena na cabeça se transformasse em uma cena impressa em papel. Talvez por isso cada detalhe torna-se fundamental, e em cada lampejo de imagem precisa ser gravado na íris, podendo ser percorrido e analisado profundamente para criar uma atmosfera que consiga envolver a cada palavra.

Opa, sinto a inspiração novamente bater na porta do cérebro... o transe recomeça...

“...Quando ela se virou, o líquido de seus cabelos ainda molhados se concentrou vagarosamente na pontinha do fio mais agudo dos seus longos cabelos escuros. Uma gotícula se formou em cada ponta próxima, que se estendiam rebeldemente em volta do seu corpo, um pouco abaixo dos seios. Com essa união, a pequena umidade começou a se tornar uma grossa gota de água, que ao tocar sua pele desprendeu-se da imensidão negra dos cabelos e começa um lento deslize através dos pequeninos pêlos loiros, que apenas são enxergados se vistos através da luz do sol, e praticamente não tocam sua macia pele branca.

Completamente hipnotizado pelo patinar daquela gotinha, que deixava um sutil rastro líquido enquanto descia pelo meio da proteção feita pela toalha branca, não conseguia nem prestar atenção que a esta hora meu coração já pulsava praticamente no meio da garganta. Movido apenas pelo calor do momento, sem pensar em mais nada dei dois passos até chegar à frente dela, e me abaixei, deixando apenas meu joelho direito tocar o chão, e instintivamente, levei minhas mãos para detrás das pernas dela, tocando com cada palma, as costas da coxa contrária, e, em câmera lenta, aproximei minha face da barriga dela, encostando a ponta do nariz um palmo acima do umbigo, aonde podia-se ver o rastro de água, e estiquei a minha língua, tocando exatamente no ponto onde a gotinha desgarrada estava passando.

Percebendo o seu espanto e a tentativa de afastar-se, segurei com mais força nas pernas, trazendo-a para mais perto de mim, comecei a fazer o caminho inverso. Como se aquele rastro deixado no meio do corpo dela fosse uma afronta, fiz com que minha língua subisse cada centímetro desde o abdômen, e então notei que se formavam pequenas bolinhas, típico de alguém que começava a render-se aos arrepios que desde que a toquei era possível notar, subindo desde a base das costas, e que agora já deixava eriçados os pêlos das coxas e da barriga.

Fui subindo, dobrando a largura do caminho que refiz, pois agora quem percorria era minha língua, seguida de meus lábios, e fui também abandonando a posição de joelhos e levantei-me, subindo também minhas mãos, chegando até o início da bunda dela, e passando por toda aquela curva perfeita delineada divinamente, marcada apenas na parte da frente, no pequeno delta da calcinha fio-dental que estava usando, pois na parte de trás não percebia-se nada.”

Maldição! Justamente quando iria começar a ficar bom tudo virou névoa novamente. É hora de se concentrar e buscar à força no fundo do âmago o calor da cena que iria se desenvolver. A única coisa que consigo pensar é no próximo e provável passo, mas a previsibilidade nunca é algo a ser explorado.

Naquele dia percebi que a história não iria continuar. Seria provavelmente arquivada como tantas outras. Mas a dúvida sobre o que aconteceria com aquela garota permaneceu pairando pelo ar. Um final era necessário, mas não havia maneira de pensar em algo.

Então foi tudo abandonado. O conto parecia perdido.

Porém, como sempre acontecem nas boas histórias, algo inesperado acontece. E durante um simples trajeto até a faculdade, um lampejo vem seguido de um clarão defronte aos olhos. E aí, o desfecho estava lançado...

“...Os corpos não conseguiam se desencaixar. O bailar dos rostos se tocando e as expressões de prazer demonstravam o ápice do momento. O ritmo frenético do ato, fazendo o suor escorrer da minha testa e pingar sob o rosto dela, criando uma mistura de fluidos por todo o corpo, apenas aumentava o nosso desejo por aquele momento. As bocas se encontravam, enquanto meu braço subia desde a coxa dela, passando pela cintura e terminava erguendo seus braços até acima da cabeça, prendendo-a enquanto atacava seu pescoço com beijos e mordidas, fazia com que os pés se retraíssem em espasmos involuntários.

O momento estava chegando...

De uma vez só, viro-a e coloco encima do meu corpo, segurando firmemente na sua cintura, subindo a mão, passando pelos seios até encontrar sua nuca, puxando-a contra mim, terminando o movimento em um beijo demorado.

Em meio a arranhões no meu peito, ela começa a deslizar, subindo e descendo soltando gemidos contidos, ao tempo em que começo a sentir uma contração subindo da ponta do meu pé, esquentando cada centímetro do meu corpo.

Então os corpos explodem de uma vez só em um orgasmo intenso, fazendo-a puxar meu corpo em direção ao dela, passando suas unhas pelas minhas costas, e me deixando marcas que mais tarde perceberia que iriam ficar para sempre. Meu sangue começava a escorrer pelo lençol, o que aumentava meu prazer, enquanto o gozo dela estava se multiplicando a cada grito, que agora de contido não tinha mais nada.

Era chegada a hora. Aqueles olhos escuros me fitaram enquanto seus músculos ainda tentavam controlar os espasmos, e percebi que deveria concluir aquilo que me propus.

A adaga estava cuidadosamente colocada no vão entre a cama e o colchão.

Estico a mão e seguro-a pelo cabo, passando a língua na lâmina fazendo-a reluzir.

Então ela quase cai encima de mim, segurando-se apenas pela pouca força que ainda resta nos braços, me encarando com uma expressão de súplica.

O corpo dela, ainda encaixado ao meu é jogado para trás, e a tensão começa a preencher seu espírito. Seus punhos se fecham e dois socos são desferidos no colchão, além de um grito agudo. Nesse momento eu sabia que a dor começaria a se tornar insuportável. A transformação estava se iniciando.

Recordo-me de suas palavras suplicando para que impedisse o ritual de se concluir. Sua alma era doce, e só porque tinha a vendido não quer dizer que tenha que causar o mau para o qual estava destinada.

Concordei com lágrima nos olhos, sabendo o que teria que fazer...

Retorno de meus pensamentos com aquela expressão de horror na face dela, pedindo-me para pôr um fim naquilo. Eu não poderia demorar mais. O tempo agora se esgotava rapidamente.

Puxo a adaga para o meu peito, segurando no cabo e virei a lâmina em direção ao peito dela, que agora se aproximava em mais um baque em seu corpo. Pela pequena distância que estávamos nesse momento, a ponta já começava a fazer um pequeno furo na sua pele.

Recuperando momentaneamente o olhar terno e doce, estica o rosto em direção ao meu ouvido e sussurra, em uma voz quase irreconhecível... Eu te amo... E sua boca colou na minha em um demorado beijo, fazendo as lágrimas escorrerem pela minha face. Então sinto seus braços perdendo a força, seu corpo caindo em direção ao meu, e a adaga trespassando seu coração.

Com o sangue quente que brotava da ferida aberta, unido ao choro, antes contido, que agora era liberto, giro o punhal da adaga e uma lâmina oculta no cabo se liberta. Uma alma só não é o suficiente para impedir, você me disse, e estou aqui para cumprir o que prometi. Então grito com todas as forças, enquanto abro os braços e deixo o peso do seu corpo, já sem vida, cravar a lâmina contrária em meu peito nu: Eu também te amo, Tay!”.

Um Giro Pelo Mundo da Literatura

Hum... vejamos a sigla disso... UGPML :D.. é uma ótima sigla. Decorem ae, eu espero...

Decoraram?

U
GÊ
PÊ
EME
ELE

:)...

Então pessoal, Um giro pelo mundo da literatura vai descrever semanalmente os lugares virtuais que eu visito, as novidades interessantes e qualquer coisa que diga respeito à literatura.

Então, vamos ao giro dessa semana:

* Um livro sem capa e com traças *

É a maneira de definir o novo livro de Alfer Medeiros.  Um livro que será publicado em embalagem especial, conservando o livro, que conterá apenas a folha de rosto, com a união lateral e as colagens aparecendo e até com uma pequena traça (tá, é um desenho, mas uma traça).

A idéia originalíssima é da Editora Estronho, que em conjunto com o Alfer, decidiram largar para o alto a idéia que um livro se julga pela capa, convidando o leitor a entrar de cabeça dentro da escrita.

Confiram o blog do livro aqui: http://goo.gl/7DXzF

* Um livro em trinta dias *

É o que promete Pedro Moreno, nos trazendo a Funerária Anúbis (que ele está querendo trocar), trazendo uma idéia interessante, de documentar diariamente o andamento do livro, seja como imagens, como videologs, ou como postagens no blog do livro. É uma dica interessante pra quem quer saber como funciona o dia-a-dia de um autor, bem como a criação do livro. Você também pode sugerir coisas ao autor. Quem sabe o seu nome não aparece pelo livro?

Acompanhem o processo de escrita que vai até o dia 18 de maio, pelo blog: http://goo.gl/CiRJh

* Um blog à moda antiga *

Minha namorada Paloma começou ontem um blog, para escrever sobre os pensamentos e sentimentos dela. Na verdade eu acho que ela quer é escrever contos, por isso estou aqui estimulando-a :)...

Blogs Old School são aqueles em que os autores postam sobre as situações do dia-a-dia em vez de postarem tirinhas ou videos engraçados.

Espero que dê certo (é o blog que ela mais postou até hoje).

Confiram lá : http://goo.gl/AXplp


* Você está pronto para isso? *

A data do lançamento do livro Morgan: O Único está chegando, e crescem as chances de um evento na cidade do autor, Douglas, para o lançamento do livro, na sexta-feira 13 de maio.

Enfim o mundo saberá como pensa (pensa?!) um zumbi, e qual o motivo para suas manias um pouco encômodas de chupar cérebros.

Não deixem de acompanhar as novidades no blog do livro: http://goo.gl/GeBbP



* Os uivos serão ouvidos *

 Estão abertas as inscrições para a antologia Metamorfose II, Os filhos de Licaão, organizado por Ademir Pascale, promovido pela Editora Literata. A antologia contará com contos lupinos, e promete trazer um material de alta qualidade, de acordo com os leitores da Metamorfose I.

Para se inscrever, faça um conto sobre lobisomens com até 8.000 caracteres e envie ao organizador.

Confiram as outras regras da antologia no link: http://goo.gl/YHXP1


Bom minha gente, espero que tenham gostado dos links da semana, uma boa semana e uma ótima páscoa à todos vocês. Um grande abraço